Desde que as regras por conta da pandemia de Covid-19 foram flexibilizadas, Nadir Ribeiro Gomes já viajou para diversos cantos do país sozinha. Moradora de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, ela já desembarcou nos últimos meses em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Búzios, Cabo Frio e Arraial do Cabo, apenas para listar alguns destinos.
No começo de julho foi a vez de conhecer Foz do Iguaçu, a Argentina e o Paraguai junto de uma excursão, quando chegou a enfrentar 3°C ao lado das grandes quedas das Cataratas.
E engana-se quem pensa que a idade é um fator que atrapalha suas andanças. Aos 71 anos, ela quer mais. “Tenho muita vontade de conhecer a África do Sul e de fazer cruzeiros. Tinha programado uma viagem para Cascais, em Portugal, antes da pandemia, mas tive de mudar os planos”, conta a aposentada.
Viajar também é uma das paixões de Carmem Dolores, moradora de Cabo Frio, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro. Hoje viúva, ela trabalhou por 57 anos e descobriu a paixão por intercâmbios culturais que aliam passeios quando o marido ainda estava vivo. A primeira experiência foi em 2018 em Bournemouth, no sul da Inglaterra, quando ainda esticou a viagem para conhecer Liverpool.
Atualmente, a também aposentada acumula uma bagagem que inclui Playa del Carmen, no México, onde mergulhou nos cenotes e se aventurou nas ruínas maias, e Newcastle, na Inglaterra, viagem que teve parada de um dia na Escócia.
“Tem pessoas que gostam de colecionar objetos, ou amam teatro e cinema. Eu gosto de viajar. Há até uma síndrome chamada de Síndrome de Wanderlust, que é uma obsessão por viajar”, cita Carmem.
Nadir e Carmem são exemplos da leva de viajantes que movimenta o turismo na terceira idade. Após se aposentar e juntar dinheiro, elas têm conhecido vários lugares e aproveitado diferentes oportunidades, seja a sós ou em grupo.
Ambas integram um filão da população brasileira que tende a aumentar nos próximos anos. Em 2060, um quarto da população deverá ter mais de 65 anos, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Em 2021, dos cerca de 210 milhões de habitantes do país, 37,7 milhões possuíam 60 anos ou mais, segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).
Novas amizades e incentivos
Além do amor por viagens, Nadir e Carmem também possuem outro traço em comum: as duas participam de um grupo público no Facebook sobre viagens na terceira idade.
Chamado de “Viagem Terceira Idade“, conta atualmente com mais de 66 mil integrantes e, como o nome anuncia, é composto por pessoas com mais de 60 anos que possuem interesse em viajar.
Criado há seis anos por Erica Roberta, funciona como um espaço aberto para compartilhamento de experiências e os usuários são bastante ativos.
“A maioria das pessoas quer fazer amizades. O principal objetivo é que as pessoas que estão aposentadas busquem amizades. Elas querem criar um vínculo para não viajarem sozinhas”, diz Erica, que continua como administradora da página.
Moradora de Santa Luzia, na região metropolitana de Belo Horizonte, ela conta que o grupo tinha pouco mais de mil pessoas antes da pandemia. Após março de 2020, com as fronteiras fechadas e os idosos em casa, o número disparou: ela chegou a receber mais de mil solicitações para participar do grupo em poucos dias.
Entre os membros, 95% do número total é composto por mulheres. Ao rolar o feed, é fácil encontrar fotos e relatos de aposentadas e viúvas em viagens ao redor do mundo, além de diversos comentários sobre fazer novas amizades.
“Tenho muita vontade de conhecer outras culturas, amo muito. Em todos os lugares que vou também faço muitas amizades”, relata Nadir Gomes. Assim como ela, Carmem Dolores também é ativa na página e recorrentemente publica suas andanças pelos intercâmbios.
Elas comentam em posts de colegas virtuais e, com as próprias publicações, têm por objetivo incentivar outras mulheres da mesma faixa etária a viajar.
“Publiquei meus intercâmbios justamente para incentivar as pessoas que têm medo de viajar sozinhas, que têm medo de andar de avião. Tem gente que possui uma condição financeira boa mas fica em casa”, menciona Carmem Dolores.
Como parte de seu trabalho, Erica, a administradora da página, organiza viagens e anuncia pacotes no próprio grupo. O primeiro encontro com integrantes do “Viagem Terceira Idade” ocorreu em fevereiro em um resort nas imediações de Belo Horizonte.
A única parte que fica por conta dos viajantes é o transporte até o destino, seja aéreo ou rodoviário, quando se deslocam sozinhos para encontrar o grupo. Assim, as viagens não são excursões, mas sim encontros em um determinado hotel com indivíduos de faixa etária semelhante.
“Abro um grupo de WhatsApp para as pessoas irem interagindo e conhecendo os colegas antes, o que afina a relação das pessoas antes da viagem”, explica Erica.
Cuidados na hora de viajar
Por se tratar de indivíduos acima dos 60 anos, alguns cuidados são fundamentais na hora de planejar e realizar as viagens.
Além dos acompanhamentos especializados e da confiabilidade transmitida pelas agências, a atenção se debruça também nos deslocamentos, com a escolha das cidades, dos hotéis e com as paradas. Adaptações então são feitas no roteiro.
“Quando vamos para a Patagônia, por exemplo, e visitamos um parque repleto de caminhadas e trekking, não deixamos de fazê-lo, mas o adaptamos. As caminhadas que outras pessoas fazem em um dia, nós fazemos de carro ou de barco, e chegamos no mesmo destino mas de uma maneira adaptada para o meu público”, diz Fabiana Donato.
Ela ainda relata que a empresa não escolhe quartos de hotéis com banheiras, principalmente na Europa. “Checamos o banheiro, os deslocamentos não podem ser entre cidades muito distantes uma da outra e sempre há paradas. Parada de banheiro é algo que sempre nos organizamos”, conta a profissional.
Os guias e acompanhantes também não se locomovem de maneira apressada e audioguias são usados para dar uma liberdade maior às pessoas que não estão próximas do grupo o tempo todo.
Os ônibus contratados devem ter sistema de rebaixamento, para que o degrau não seja tão alto. Na Pastore, as viagens rodoviárias, principalmente nacionais, sempre são na categoria de leito luxo, com água mineral à vontade e kit lanche.
“Os passeios não podem ter duração muito longa, fazemos uma programação mais diurna, mas também temos experiências à noite, em que vamos mesclando tudo que sentimos que é importante para eles”, afirma Fabiana.
A escolha da época da viagem também é significativa: o público prefere viajar na primavera e no outono, evitando o alto verão ou o alto inverno.





